Terminado o Congresso, momento de voltar pra casa. Passei alguns apuros e momentos de intensa irreverência (pra variar!) no dia de despedida.
Nos últimos 4 dias, fiquei com o acesso limitado à internet. Meu notebook ficou na sala dos jornalistas, trancado com todos os equipamentos de valor utilizados por nosso grupo, já que praticamente todos os delegados estavam fora de Quebec, trabalhando nos Action Projects (projetos de ação). É por isso que o blog ficou parado.
O trabalho dos jornalistas foi suspenso. Cada um embarcou para um projeto diferente e, eu, como já mencionado em um post anterior, só fiquei na Universidade de Laval porque entrei para o projeto de ação dos artistas do evento, cujo objetivo era ensaiar, produzir a apresentar os shows de encerramento:

Muito forte a despedida. Doloroso dizer adeus para amigos de tantos lugares diferentes, que você não sabe quando, e se verá novamente. Ao mesmo tempo, fica sempre a alegria e a gratidão por ter tido a chance de conhecer pessoas tão interessantes, que abrem sua visão de mundo de uma maneira impressionante, marcante, intensa e bonita.

O saguão da Universidade, antes barulhento, tumultuado e cheio de stands, estava vazio. A cada hora, partia um, dois, três ônibus levando os amigos para o aeroporto. Abraços, lágrimas, sorrisos... No
grand salon, em que aconteciam as plenárias e as grandes reuniões, estavam nossas malas.
Fui das últimas a sair, já que permaneci no Canadá por alguns dias. Fazia eco o saguão da Universidade, e isso me deixava ao mesmo tempo um vazio do que ficou no passado, como um espaço para ser preenchido no futuro-presente. Sensação de que tanta coisa nova está por vir. Tantas idéias, tantos contatos, tanta vontade. Como diria Einstein "A mente que se abre para uma nova idéia nunca volta ao seu tamanho original".
Dali da Universidade, eu partiria para a casa de uma casal de empresários, grandes amigos Quebecois. No começo da tarde recebi um email deles, informando que só chegariam em Quebec pela noite, e, então, esperariam meu contato. Para garantir, resolvi procurar uma pousada, hotel, caso eles tivessem algum problema.
Qual não foi minha surpresa quando descobri que o concerto da Celine Dion que aconteceria lá, em comemoração aos 400 anos de Quebec, tinha lotado toda a cidade já há muito tempo.
Para garantir um teto no Canadá, precisei me virar às pressas - com um pouco de tensão. Chamei em Toronto minha amiga Sheeza Sarfraz, pedindo aconchego. Ela é paquistanesa e mora com a família no Canadá há uns dois anos.
Sem titubear, ela disse que ia me esperar no aeroporto com o maior prazer dos últimos tempos... então adiantei meu vôo de volta para o Brasil, que passaria em Toronto de qualquer forma, e fiz uma parada de alguns dias por lá... e em duas horas estava abraçando essa amiga querida que não via desde 2003.

Foi bom, pois acabei voando Quebec-Toronto na companhia dos delegados brasileiros que partiram por último: Paulo e Efraim.
Difícil ter coragem para chegar em um ambiente tão diferente, (como um lar paquistanês), à meia noite, quase "sem avisar", cheia de malas, pedindo cama e um chuveiro quente... Mas a gente percebe que, para uma amizade de verdade, não tem muito disso. E, confesso, nunca me senti tão bem-vinda e tão à vontade quanto esses três dias em que fiquei com a Sheeza.
O lifestyle, fui pegando aos poucos: tirar os sapatos na porta do apartamento, evitar dividir o espaço com os homens da casa, tomar cuidado com o exagero picante da comida, adotar um pouco de recato para meu tempero latino americano... e por aí vai. O melhor é ter abertura para perguntar se este ou aquele gesto não serão mal interpretados para a cultura deles. E descobri que a Sheeza é, em muitos momentos, muito mais liberal que eu!
Aprendi a dançar algumas danças, a falar urdu, tive as mãos tatuadas com henna, provei um prato (apimentadíssimo, beirando o insuportável), que ela me fez de jantar... e, diga-se de passagem, depois comeu de café da manhã.
Discutimos também o que eu realmene queria de café da manhã e ouvi um "Nossa, que esquisito", quando pedi só torradas com geléia, manteiga e chá.

A Shajia, irmã da Sheeza, e minha amiga também, não estava por lá. Havia ido para o Paquistão para conhecer um pretendente, amigo da família, que estava querendo se casar. Discutimos muito sobre a questão cultural, valores, relações humanas e descartabilidade das relações na sociedade ocidental. A Sheeza tem 22 anos e nunca ficou com um homem (nem com uma mulher).
Ela diz naturalmente que quer seguir os costumes do seu país, e a felicidade pra ela vai ser encontrar um homem interessante (alto, mais velho e inteligente!) que a família aceite e que seja o único homem da sua vida. Eu disse "Maravilha, Sheeza, que bom que você já sabe o que vai te fazer feliz".
Ela estranha muito e sempre a forma aberta como ouço todas as suas histórias de conceitos sem achar estranho, sem achar que aquilo é um costume absurdo... Sinceramente, acho que a nossa geração ocidental tem costumes tão absurdos quanto os que julgamos que os países árabes têm.
Ao falar sobre valores, sobre regras impostas,tradições, rituais rigorosamente vividos, ela comentou que, embora o mundo acuse a sociedade paquistanesa de ser muito conservadora, estrita, e associar isso à insanidade, ela não vê no paquistão tantas pessoas loucas, com problemas mentais, perambulando pelas ruas como via ali no Canadá. Estou refletindo sobre isso até hoje. P
assamos um almoço todo reforçando a idéia de que a saúde mental e psicológica realmente deve ser atribuída principalmente a fatores sociais e não biológicos.
A Sheeza tem um humor maravilhoso. Quando nos conhecemos, fiquei com receio de como abordá-la. Ela percebeu, fez uma cara de mistério, pôs as mãoes embaixo da roupa,como se escondesse algo... Aquelas roupas lindas, cheias de panos, que as paquistanesas usam, e falou meio baixinho em tom de ameaça "Cuidado, eu sou do Talibã!". Caímos na gargalhada e eu me apaixonei por ela.
Ela me ensinou muito sobre tolerência, sobre disciplina, espiritualidade. Sempre tive curiosidade sobre o porquê de os muçulmanos fazerem o ramadã. Um mês de restrição, em que eles só comem quando o sol se põe e antes de o sol nascer. Ou seja, jejuam das 6 das manhã as 7 da noite.
Sempre achei que era uma espécie de sacrifício em memória a algum período da história dos muçulmanos. Mas, não, ela apenas me disse que é um exercício de disciplina e auto-superação. Que, a cada ramadã, ela sente que sai mais evoluída, aceitando melhor algumas restições que a vida impõe e conhecendo seus limites.
Curiosamente, ela também contou que, usualmente, se engorda durante o ramadã. Eles acordam de duas em duas horas durante a madrugada e fazem verdadeiros banquetes. Os restaurantes mudam seus horários e a comilança é garantida.
A Sheeza estuda Ciências Sociais na Universidade de Toronto e pretende se casar nos próximos anos. Ainda não encontrou o pretendente... Que, para ela, tem que ser muçulmano, mas não precisa necessariamente ser paquistanês. Prometeu uma visita ao Brasil, mas só depois que conseguir voltar ao Paquistão para rever seus amigos e parentes. Desde que foi para Toronto, há 2 anos, para estudar e sair um pouco da dificuldade que é a vida para uma mulher no paquistão, não voltou para sua terra natal.
Nos despedimos num clima parecido com a despedida do congresso. Alegria e tristeza. Nunca pensei que veria minha amiga paquistanesa chorar. Foi especialmente tocante. Um dia antes da minha partida ela me pintou como se pintam as paquistanesas e fomos comprar presentes para o Antônio, meu sobrinho. Ela, pra variar, não ficou pra trás em apuradíssimo bom humor: comprou uma camiseta de neném (ele tem 3 meses) com uma foto do Che Guevara, escrito
"I have no idea who this guy is" (eu não faço a menor idéia de quem seja este cara).

Enfim, cheguei no aeroporto. Fiz o check in, me livrei das malas e fui comprar chocolates no free shop. Para não terminar a viagem sem fatos inusitados e emocionantes, trombei com o Giba, da seleção de vôlei. Olhei pro lado e vi inúmeros atletas com o uniforme do Brasil. Estavam voltando da China, fazendo escala em Toronto.
Com tanta intensidade vivida nessas últimas semanas, nem me lembrei das Olimpíadas. O vôo atrasou algumas horas e um grupo de brasileiros que também voltava da China, para onde foram ver os jogos olímpicos, começou uma cantoria boa com um violão na sala de embarque. Fui interagir com meus conterrâneos... feliz da vida por ouvir português de novo, mas, principalmente, por sentir aquele energia brazuca!
Comentei sobre essa energia com uma mulher que estava ali perto e, para quem, depois notei, todo o pessoal estava olhando. Foi então que um homem jovem me abordou e disse "Você não sabe quem é ela? Tem que dar parabéns! Ela ganhou a medalha de ouro para o Brasil!". Com tanta saudade da minha terra, eu a abracei e agradeci a medalha, pedi desculpas por estar tão alheia e completei "Parabéns, e... você ganhou medalha em quê?"... ela me respondeu que foi em salto em distância e depois pediu licença, chamou um amigo e pediu: "Me filma um pouco com todo o pessoal cantando pra mim?". Era a Maurren Maggi, radiante e à vontade com toda a bajulação.

Fomos todos no mesmo avião. Voei ao lado do José Inácio Salles Neto, preparador físico da seleção masculina. Ele não se incomodou em me passar o quadro de medalhas do Brasil...Nem me julgou por estar totalmente alheia. Contou que era amigo do Paulinho Moska, me deu um bocado de broches oficiais das Olimpíadas e passou horas comigo falando sobre empreendedorismo social.
Ele ajuda a coordenar um projeto de vôlei que treina meninos da periferia do Rio de Janeiro, não para virarem atletas, mas para terem uma atividade de desenvolvimento para suas vidas. Para levar o esporte como um instrumento de integração social, de disicplina, de entretenimento e lazer para pessoas que têm quase nenhuma perspectiva.
Nos despedimos e ele me agradeceu pela agradável companhia. Eu retribuí, disse que o prazer era meu, e o parabenizei pela seleção , pelo trabalho , mas principalmente por achar tempo em sua jornada de duplo trabalho para se dedicar à causa social.
E assim cheguei ao Brasil... com a mala mais vazia (já que presenteei amigos com muitas coisas minhas, inclusive meu pandeiro e minhas havaianas), mas com o coração e a alma transbordando!